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Para traduzir com lucidez o sentido da existência
Seria correcto utilizar uma imagem coerente:
“Nascer, viver e novamente recomeçar”
Porque do acto de nascer não tenho consciência
Contudo há a essência da vida que não o desmente
Já diferente foi o caminho de um lento vivenciar
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Da meninice recordo episódios isolados
Onde persistem sentimentos de abandono
De fuga ao quotidiano de menino pobre
Onde inocentes brincadeiras foram aliadas
A uma camaradagem franca e sem retorno
Mas cuja lembrança tem um sabor nobre
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Nos longos anos que marcam a minha vida
Há tantas histórias, amores, mentiras e verdades
Tudo isso não passa de uma amálgama de emoções
Que foi condimentada de forma sentida
Onde a ausência do antídoto contra as maldades
Abriu caminho a muitas e servis tentações
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A vida devia ser uma festa permanente
E não é porque nós não acreditamos
Naquilo que pretendemos e queremos
Eu deixei a vida deslizar serenamente
Percorri longas avenidas ladeadas de álamos
E contornei os caminhos agrestes e ermos
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Os anos da juventude foram belos e fogosos
Mas quantas vezes me impediram de ver
Retiveram o meu imenso desejo de escolher
Porque não conhecia outros sois radiosos
Que certamente me teriam feito aceder
Aos altares celestes de um outro saber
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Agora que a luz da vida está prestes a apagar
Penso tranquilamente em tudo que queria e não tive
Afinal era dispensável, porque consegui ser eu mesmo
Neste corpo efemeramente cedido que irei entregar
Só ficarei com a alma que sempre sobrevive
E que me levará ao encontro do Bem Supremo