segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Pétalas caídas



De pétalas caídas no caminho
É agora o sentido da minha vida
Quantas rosas deixei envelhecer
Pelo medo que me tolhia cada espinho
Que se atravessa na carne ferida
De cada vez que acordo ao amanhecer

Aquele fogo que outrora me consumia
Não passa agora de uma pequena chama
Prestes a apagar-se pela tua ausência
Está tão fraca e quase não alumia
De nada serve eu ter uma boa cama
Não estando lá aquela que comigo dormia

Quando olvido tua face fria e pálida
Que era sedosa e de cor ruborizada
Sinto um enorme vazio no coração
E recordo aquelas noites até madrugada
Passadas ao teu lado, minha amada
Onde se misturava o amor com a emoção

A vida que antigamente nos uniu
Hoje mantém-nos tão distantes
Foi algo de belo que passou docemente
Um amor sublime que não se sumiu
Mas que já não é como dantes
Por mais que eu me esforce e tente

Choro amargamente a minha desdita
Por não conseguir reaver os teus carinhos
E o toque macio que me percorria
Como o afagar de tua mão bendita
Os ternos e prolongados miminhos
De mulher que sabia o que queria

De raiva e dor são os meus dias
Vivo do murmúrio das tuas juras de amor
Que então me fizeste e não cumpriste
Anseio pela chegada das noites tardias
Pelas manhãs longe de qualquer temor
Para encontrar um amor que me conquiste


quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Silêncios


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A minha vida é feita de silêncios
Daquilo que falo e não devo
Do que oiço e não entendo
De tudo o que não dizem os compêndios
Mas sobre os quais eu escrevo
Por vezes ostracizando quem está lendo

O silêncio em meu redor é ensurdecedor
Daqueles que choram por falta de sustento
Dos que não tem alimento do saber
Enquanto outros remoem a dor
Pela falta de um poderoso alento
Ao sentirem que nada podem fazer

Que mundo de silêncios atroz
Que sociedade azeda e amarga enfrentamos
Onde devia haver amor está o ódio
Nosso barco não passa de uma casca de noz
Num mar de ondas em que volteamos
De uma vida que parece um nó górdio

Crianças famintas brincam na rua
Sedentas e andrajosamente vestidas
Olham-nos com temor e estendem a mão
Esboçam um sorriso triste de uma face crua
Já enrugada pelas fortes investidas
De uma vida que apenas conhece o não

O não de uma carência quase total
De vidas esquecidas e amarguradas
Por aqueles que tudo tem e usufruem
Embora sabendo que o seu destino é fatal
Mas não prescindem de pequenos nadas
Para socorrer os que nada tem

Silêncio no negrume de noites malditas
Em que se tornou a vida de muitos seres
Pela falta de pão, amor, justiça, ensino e paz
Algumas das muitas e negras desditas
Que atingem milhões sem haveres
Que o Mundo não cala por não ser capaz

sábado, 10 de Outubro de 2009

O pastor


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Pastor que te levantas ao amanhecer
Ainda a noite não se extinguiu
Vês pela janela novo dia a despontar
A chicória está pronta, ainda a ferver
Num prolongado gole ela sumiu
Estás pronto para começar a trabalhar

Desces os degraus da escada a correr
Vais ao curral contar o gado
O cão sentiu e já te acompanha
Abana a cauda só por te ver
É a sua expressão para dizer obrigado
Por mais um dia de campanha

A cancela do redil está aberta
O rebanho atropela-se ao sair
O cão late com grande veemência
Procura manter a ordem e o alerta
Para que nenhuma possa fugir
De uma determinada confluência

Cobertor às costas e de sacola pendurada
Avanças pausadamente terreno fora
Apoiado no cajado com dupla função
Percorres mil caminhos de uma virada
Na procura dos pastos de outrora
Que agora são tão só desilusão

Ao frio e à chuva ou com o calor do sol
Teus dias são sempre iguais
Teu rosto enrugado de vida madura
Revela sacrifícios e penas sem rol
Em trabalho nada parecido com os demais
Mas que é feito de amor e ternura

Conheces todas as tuas ovelhas
Chamas por elas uma a uma
Também o Senhor é Pastor
Sabe e conhece cada uma delas
Tal como tu não perdes nenhuma
Ele as recolhe com todo o amor

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Por do sol









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O horizonte cingiu-se de tons dourados
Com uma réstia de sol a espraiar-se nas águas
Caminho ao longo da praia vagarosamente
Piso a areia fina com mil cuidados
Oiço a água límpida a embater nas fragas
Como pensamentos vagos na minha mente



Perscruto o por do sol no horizonte
Sinto o doce afagar das águas tépidas
Meus pés estão cansados de tanto calcorrear
Começo a sentir suores na fronte
Foi das longas e vertiginosas corridas
Para melhor sentir a brisa do mar


Por momentos deixo-me enlear
Pelo mavioso chilrear das aves nas margens
Enquanto a vegetação se verga ao poder do vento
Meus sentidos captam os ruídos do mar
Em terno e saudoso lamento pelas virgens
A quem concedeu o último momento



Olhando para trás só avisto o areal
Vazio de pessoas que chegaram ao amanhecer
Foi um dia pleno de vida a fervilhar
Movimentos contínuos de um vaivém real
Em lugar aprazível para permanecer
Mas onde agora me encontro isolado a meditar


Sentado e de olhar fixo no por do sol
É a minha posição preferida para reflectir
Penso naquelas crianças mais desvalidas
De todos os continentes e cores sem rol
Que da vida apenas tiveram o porvir
Pois continuam a ser totalmente esquecidas


Como o ser humano é ingrato com o semelhante
Todos ansiamos por maior e melhor bem-estar
Mas olvidamos aqueles que nada têm
Orgulhamo-nos de pertencer à classe pensante
E não somos capazes de soletrar
O verbo amar a favor de outrem

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Rosa simplesmente




Apenas e só uma rosa, és certamente
Tanto podes ser flor como nome de mulher
A dúvida só existe porque são distintas
Distintas na sua essência, efémeras eternamente
Uma posso escolher, a outra quero colher
Só preciso que tu me consintas


Olho enternecidamente tua beleza
Na cor não tens concorrente
Pálida ou viva és sempre diferente
Fazes-me recordar com saudade a realeza
Que outrora foi dona de tanta gente
E para quem hoje é indiferente


Em jovem foste um botão mimoso
O amor da natureza amenizou a tua abertura
A metamorfose deu-se tão lentamente
Qual hino belo, suave e melodioso
De uma longa e trabalhada partitura
Que eleva nossos sentidos ao maravilhoso


Tuas pétalas são macias e perfumadas
Desabrocharam na primavera passada
Não quiseste esperar pelo verão quente
Sentias tuas sementes esmagadas
Querias sorver o ar da madrugada
E ver a luz a esconder-se no poente


Tinhas pressa em ser admirada
Impaciência em ser conhecida
Desejavas abrir teu ser para a vida
Conseguis-te embriagar-me pela calada
Numa manhã jamais esquecida
Em enlace pleno de alma sentida


Teu caule é esperança de abrigo
Teu odor faz esquecer tudo em volta
Teus espinhos tornam-se grilhetas de amor
Enalteço uma rosa sim e por ela brigo
Só tu poderás calar minha revolta
Por não te possuir, mesmo lutando sem temor

sábado, 5 de Setembro de 2009

Mar salgado


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Mar que enrolas e te espreguiças em voltas
Quando estás zangado és odiado e temido
Cavalgas em ondas sem qualquer piedade
Deslizas veloz em vagas revoltas
Mas só pretendes fazer soar o teu rugido
Ameaçando aqueles que partem com saudade

Eu que viajo pensativo no convés
De um qualquer barco que zarpou no tempo
Perscruto o longínquo e apenas a ti te fito
Zurzindo por me olhares de revés
E amaldiçoando o contratempo
De viajar a caminho do infinito

Mar que deverias ser de calmaria
Servir de descanso no doce baloiçar
Da longa viagem que desejo terminar
Não sei onde tal me aventuraria
Talvez seguindo o Atlântico possa alcançar
O lugar onde gostaria de ficar

Aprecio deleitosamente o teu azul ondulante
Detesto que ocupes todo o meu ângulo visual
Adoro paisagens sem fim com o verde por fundo
Tu és deveras grandioso e petulante
Enorme e com um espaço abismal
E esqueces que não és senhor do mundo

Admiro-te como dom perene da natureza
Louvo a riqueza que tens e nos concedes
Odeio-te quando tragas homens trabalhadores
Sinto temor e asco pela tua rudeza
Quando não respeitas os que deitam as redes
E com isso causas tantas dores

Oh mar que abraças todos os oceanos
Neles fundes e consolidas teu poder
Hei-de maldizer-te se não te secar
Porque salgado será o fim dos teus anos
Choro penosamente por não poder saber
Se um dia alguém te poderá amar

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Porque existo?


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Em dias de nostalgia busco o impossível
O corpo fica presente mas o espírito divaga
Percorre anos-luz no tempo da imaginação
Sentado à beira mar de um Oceano invisível
Ou no alto escarpado de uma fraga
Procurando alguma réstia de doce emoção


A Vida de um ser humano é feita de arco-íris
Onde rodopiam sem parar os sentimentos
Com cores arrancadas à esperança
Caldeadas em ardorosos desejos pueris
Lutando em todos os momentos
Para fugir de uma cruel lembrança

Recordar a razão de ter nascido
Não é mera filosofia que me desbarata
Qualquer explicação da minha existência
Remete-me para um negrume desconhecido
Que com o tempo me esfarrapa e mata
Sem qualquer alívio de consciência

Só existo mas vivo sem saber porquê
Desconheço a origem do meu ser
Não quero finar sem o saber
Porque vim a este mundo e para quê
Gostaria que me fosse reconhecido perceber
É um direito que penso ter

Para alem das dúvidas sentidas
Fica a certeza da existência em concreto
Só a isso me posso agarrar e tentar potenciar
Olvidando objecções intrinsecamente mantidas
E vivendo um dia a dia que penso correcto
Para não sentir necessidade de me penitenciar

Na vida mantenho e sigo convicções
Pois tenho que me conformar com a realidade
Ser grato a quem me deu a Vida
Mesmo que Ele me imponha restrições
Devo aceitar o Seu amor e caridade
Só assim a Vida poderá ser plenamente vivida